Livro digital: censo sem consenso

O trending topic do mercado editorial nas últimas semanas é a divulgação do “censo” do livro digital.

Apesar do mérito da pesquisa, inédita, no mercado brasileiro, o resultado foi bastante comentado, em artigos e redes sociais, começando pelo próprio nome intitulado a pesquisa – Censo.

Felipe Lindoso, dá uma aula sobre o tema no artigo – O “censo” do livro digital, no qual destaca a falta dos ebooks auto publicados e explica os bastidores deste tipo de pesquisa (e como poderia ser realizada).

Já Carlos Seabra vai além e destaca a falta dos ebooks gratuitos no levantamento realizado, outro ponto bem comentado nas redes sociais, e que certamente mudaria a fatia de participação dos ebooks.

“Nova economia pressupões não usar velhos paradigmas, mas sim levantar tudo o que possa ser relevante. E no caso do livro digital, as publicações gratuitas são a maior parte do corpo do iceberg”

Carlos Seabra, comentário no grupo AED

 

Destaques apresentados pela Pesquisa Fipe/CBL/SNEL

  • Foram investigadas 794 editoras. Dessas, apenas 294 produzem e comercializam conteúdo digital (37%).
  • A produção e comercialização de conteúdo digital está concentrada nos subsetores de obras gerais e CTP.
  • O acervo de conteúdo digital comercializado no país em 31/12/2016 é de 49.662 Títulos.
  • Foram publicados e comercializados 9.483 novos números de ISBN em 2016.
  • Em 2016 foram vendidas 2.751.630 unidades de e-books, sendo 87% deles do subsetor de Obras gerais.
  • O faturamento total com conteúdo digital em 2016 foi de R$ 42.543.916,96, o equivalente a 1,09% do mercado editorial brasileiro (excluindo-se as vendas ao setor Governamental).

Fonte: Censo do Livro Digital 2016

Fonte: Censo do Livro Digital

 

Dados são apenas números e informações, vale mais o contexto e como são interpretados. Para quem enxerga o “copo meio cheio” ter 500 editoras que responderam a pesquisa fora do mercado digital demonstra o potencial existente no setor e ainda não explorado! Pois, em algum momento essas editoras irão partir para produtos digitais.

Contudo, a baixa quantidade de editoras produzindo digital surpreendeu até os organizadores da pesquisa.

“A surpresa foi a quantidade de editoras que produzem e comercializam e-books no Brasil. É um índice abaixo do que eu esperava” — disse Marcos da Veiga Pereira, presidente do Snel, em matéria para O Globo.

Outro comentário que me chamou atenção, na mesma matéria, foi do presidente da CBL, Antônio Torelli – “O e-book ainda é uma novidade que exige investimento para ser bem feito. Acredito que as editoras estejam com o pé no freio.”

Até quando o eBook será uma novidade? Claro, se pensarmos no público final ainda há muito trabalho de divulgação, em especial, para educar potencias leitores sobre como acessar e, principalmente, onde e como ler um livro digital. Mas pensando em editoras, como empresa, o eBook não deveria ser mais novidade já há alguns anos.

Quanto ao investimento, a frase dá a entender que é preciso um investimento médio (no mínimo) para produção de eBooks. Pois bem, considerando o mercado de obras gerais, com livros de ficção e não ficção, o valor médio para produção de um eBook não passa de R$5,00 por página, partindo do arquivo finalizado para impressão ou do word.

A produção/conversão de eBooks nunca teve valor agregado alto, com exceção, do setor de didáticos e CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais), que devido as características dos títulos possuem um custo de produção mais elevado.

Em entrevista ao portal de notícias Nexo, Antonio Hermida, ratifica essa ideia “O formato (eBook) é relativamente barato de ser produzido, demandando um investimento pequeno por título.”

Enfim, parece que há dois mercados de livros digitais. Um para as instituições de classe do setor e outro de quem produz e atua diretamente com esse mercado.

Claudio Soares, completa os comentários sobre a matéria do O Globo, neste link. E reforça a necessidade de se incluir os dados de consumo dos ebooks fora das livrarias tradicionais. 

Global eBook 2017

 Alguns meses antes da divulgação do “Censo”, a PublishNews publicou o resultado do Global eBook report 2017, com uma estimativa ou, como citou o autor da pesquisa Carlo Carrenho, um “educated guess”, com base numa amostra de editoras, varejistas e distribuidores que contribuíram desde que a fontes dos dados não fossem divulgadas.

No gráfico a evolução da participação do digital nas vendas de livros de interesse geral. Quando comparado com a pesquisa Fipe/CBL/Snel a diferença é mais do que considerável.

Fonte: PublishNews

Um dado interessante do Global eBook 2017 e não apresentado pelo “Censo” é o market share do varejo de eBooks. Aqui chamo a atenção sobre a participação do Google no segundo lugar entre os varejistas de ebooks [leia mais em Livrarias Digitais

Fonte: PublishNews

Um mercado muito complexo

Engana-se quem pensa que essa dificuldade na obtenção de dados sobre o mercado editorial digital, em especial dos auto publicados, é exclusividade tupiniquim. Felipe Lindoso (novamente) apresenta um comparativo entre as fontes de dados disponíveis no mercado americano e as nossas, neste artigo. Claro, guardadas as devidas proporções e características, as dificuldades existem em ambos os mercados e foram muito bem explicas no artigo.

Contudo, em se tratando de auto publicação, todo e qualquer mercado de livro digital passa por problemas semelhantes, pois as principais livrarias Amazon, Apple, Google e Kobo não compartilham seus dados de distribuição, sejam os títulos gratuitos ou vendidos.

Nos EUA, o grupo Author Earnings há muito contesta furiosamente os dados apresentados pelas associações do mercado editorial nas terras do Tio Sam, comenta Felipe Lindoso.

Author Earnings Report

E numa rápida visita ao site dos autores independentes, ou seja, auto publicados pude acessar o relatório February 2017 Big, Bad, Wide e International Report e leiam a citação abaixo presente nos primeiros parágrafos de apresentação do estudo. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

“And, as we’ll also see, untracked, non-traditional suppliers make up a high percentage of ebook sales in those countries as well. Which means that these other digital markets have also been consistently underestimated and under-reported by traditional publishing-industry statistics.”

Em tradução livre: “Como também veremos, fornecedores não tradicionais compõem uma alta porcentagem sobre as vendas de eBooks. O que significa que esses outros fornecedores e mercados foram consistentemente subestimados pelas pesquisas e estatísticas com base no modelo tradicional do setor editorial.”

A seguir comento algumas partes da pesquisa do Author Earnings.

Logo de início chama à atenção os critérios e filtros aplicados na pesquisa, bem como a metodologia utilizada para ranquear os títulos, mesmo os auto publicados. O processo é bem transparente.

Auto publicação

Fonte: AuthorEarnings

Através da metodologia utilizada a pesquisa consegue dividir o mercado em cinco grupos de publicadores considerando as quatro principais livrarias digitais. Olha que interessante, o grupo Indie Self-Published (auto publicado) aparece com expressiva participação!

 

Venda de eBooks

Sei que não devemos comparar nossa realidade sobre o mercado de livros digitais, com outros países e mercados, temos muitas particularidades. Mas acredito que mercados de paises com o perfil da Austrália podem nos ensinar alguma coisa. Com uma população de 24 milhões consegue atingir a soma de mais de 22 milhões de ebooks vendidos. Parabéns!

Em 2014, o IBGE contabilizou 95 milhões de internautas e pesquisa recente da Global study: frequency of reading books identificou que 27% da população online brasileira lê eBooks pelo menos uma vez por semana. Numa conta rápida cerca de 25 milhões de leitores. Será possível?

Pesquisa recente da Global study: frequency of reading books identificou que 27% da população online brasileira lê eBooks pelo menos uma vez por semana.

Livrarias digitais

Fiquei curioso com a participação ínfima do Google nos cinco maiores mercados de língua inglesa e em contra partida o eBook Global Report 2017 apresenta o Google com 18% de market share no Brasil, ocupando “um honroso e isolado segundo lugar entre os varejistas de eBooks no Brasil”, como cita a matéria no PublishNews.

Conclusão

Parabenização pela iniciativa à parte, o ponto de partida foi dado e que nos próximos anos a pesquisa possa representar com maior precisão o mercado de livros digitais no Brasil.

 

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Felipe Santos

Especialista Adobe em InDesign, Photoshop e Digital Publishing Suite, com 25 anos de experiência nas áreas de pré-impressão, editoração e tratamento de imagens, transita desde 2010, após o lançamento do iPad, entre as midias impressa e digital. Apaixonado por publicações digitais é entusiasta de novas ferramentas, plataformas e formatos.

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